Comportamento alimentar

Quando a busca pela magreza encontra os novos medicamentos para obesidade

Uma reflexão sobre estigma do peso, imagem corporal e as perguntas que surgem quando um tratamento médico passa a ser procurado para atender a pressões estéticas.

30 de julho de 2026 · Por Katia Nahum, psicóloga — CRP 05/32539

Katia Nahum é psicóloga — CRP 05/32539 — e professora do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Sobre Katia Nahum

Os agonistas de GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade. Ao mesmo tempo, a procura por esses medicamentos por pessoas sem obesidade, motivada exclusivamente pelo desejo de alcançar um corpo mais magro, abre uma conversa importante sobre saúde, imagem corporal e estigma do peso.

Em uma publicação no Instagram, compartilhei a preocupação de que a magreza possa ser associada a sucesso, aceitação e valor social. Quando isso acontece, um medicamento pode deixar de ser compreendido como parte de um tratamento indicado e passar a ocupar o lugar de resposta às pressões estéticas.

Uma conversa que vai além da perda de peso

Não se trata de negar a importância dos avanços médicos. Trata-se de ampliar o olhar. O uso de qualquer medicamento deve ser discutido com profissionais habilitados e dentro de uma avaliação individual. Do ponto de vista psicológico, também é importante considerar os sentidos que a busca pela perda de peso pode ganhar na vida de cada pessoa.

Vale perguntar:

Estamos tratando uma condição de saúde ou perseguindo um padrão corporal?

Que impacto essa busca pode ter na relação com a comida, com o corpo e com a autoestima?

Como o medo de recuperar peso pode atravessar decisões, emoções e expectativas?

O corpo não é um projeto de adequação

O estigma do peso e a cultura da magreza criam um cenário em que muitos corpos são constantemente avaliados, comparados e cobrados. Uma escuta clínica pode oferecer espaço para compreender esses atravessamentos sem transformar a pessoa em um problema a ser corrigido.

Nem toda perda de peso significa ganho em saúde. Cuidar da saúde mental também envolve olhar para as expectativas que carregamos, para a história que temos com o corpo e para a possibilidade de construir escolhas mais conscientes e menos guiadas pela pressão social.

Este texto não substitui orientação médica, nutricional ou psicológica individual.

Este texto foi desenvolvido a partir de uma publicação de Katia Nahum no Instagram.